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Ai MourariaEstranha Forma de Vida Há Festa na Mouraria Barco Negro Maria Lisboa Meu Amor é Marinheiro Meu Limão de Amargura Uma Casa Portuguesa Povo que Lavas no Rio Madrugada de Alfama Lágrima Oiça lá ó Senhor Vinho Ai Mouraria
Amadeu do Vale/Frederico Valério Ai, Mouraria Da velha Rua da Palma, Onde eu um dia Deixei presa a minha alma, Por ter passado Mesmo ao meu lado Certo fadista, De cor morena, Boca pequena, E olhar trocista. Ai, Mouraria Do homem do meu encanto Que me mentia Mas que eu adorava tanto. Amor que o vento como um lamento, Levou consigo Mas que ainda agora A toda a hora Trago comigo. Ai, Mouraria Dos rouxinóis nos beirais Dos vestidos cor-de-rosa, Dos pregões tradicionais. Ai, Mouraria Das procissões a passar Da Severa em voz saudosa, Da guitarra a soluçar. Estranha Forma de Vida
Amália/Alfredo Duarte "Marceneiro" Foi por vontade de Deus Que eu vivo nesta ansiedade, Que todos os ais são meus, Que é toda a minha saudade, Foi por vontade de Deus. Que estranha forma de vida Tem este meu coração, Vive de forma perdida, Quem lhe daria o condão? Que estranha forma de vida. Coração independente, Coraçao que não comando, Vive perdido entre a gente, Teimosamente sangrando, Coração independente. Eu não te acompanho mais, Pára, deixa de bater. Se não sabes onde vais, Porque teimas em correr, Eu não te acompanho mais. Há Festa na Mouraria
António Amargo/Alfredo Duarte "Marceneiro" Há festa na Mouraria, É dia da procissão Da Senhora da Saúde. Até a Rosa Maria, Da Rua do Capelão, Parece que tem virtude. Colchas ricas nas janelas, Pétalas soltas no chão, Almas crentes, povo rude. Anda a fé pelas vielas, É dia da procissão Da Senhora da Saúde. Após um curto rumor, Profundo silencio pesa, Por sobre o Largo da Guia. Passa a Virgem no andor, Tudo se ajoelha e reza, Até a Rosa Maria. Como que petrificada, Em fervorosa oração, É tal a sua atitude, Que a rosa já desfolhada, Da Rua do Capelão, Parece que tem virtude. Barco Negro
David Mourão-Ferreira/Piratini, Caco Velho De manhã, que medo Que me achasses feia! Acordei, tremendo, Deitada na areia... Mas logo os teus olhos Disseram que não: E o sol penetrou No meu coração. Vi depois numa rocha uma cruz, E o teu barco negro Dançava na luz... Vi teu braço acenando, Entre as velas já soltas... Dizem as velhas da praia que não voltas. São loucas! São loucas! Eu sei, meu amor: Que nem chegaste a partir, Pois tudo, em meu redor, Me diz que estás sempre comigo. No vento que lança Areia nos vidros; Na água que canta; No fogo mortiço; No calor do leito; Nos bancos vazios; Dentro do meu peito Estás sempre comigo. Maria Lisboa
David Mourão-Ferreira/Alain Oulman É varina, usa chinela, Tem movimentos de gata; Na canastra, a caravela, No coração, a fragata. Em vez de corvos no chaile, Gaivotas vem pousar. Quando o vento a leva ao baile, Baila no baile com o mar. É de conchas o vestido, Tem algas na cabeleira, E nas veias o latido Do motor duma traineira. Vende sonho e maresia, Tempestades apregoa. Seu nome próprio: Maria, Seu apelido: Lisboa. Meu Amor é Marinheiro
Manuel Alegre/Alain Oulman Meu amor é marinheiro E mora no alto mar Seus braços são como o vento Ninguém os pode amarrar. Quando chega à minha beira Todo o meu sangue é um rio Onde o meu amor aporta Seu coração – um navio. Meu amor disse que eu tinha Na boca um gosto a saudade E uns cabelos onde nascem Os ventos e a liberdade. Meu amor é marinheiro Quando chega à minha beira Acende um cravo na boca E canta desta maneira. Eu vivo lá longe, longe Onde passam os navios Mas um dia hei-de voltar As águas dos nossos rios. Hei-de passar nas cidades Como o vento nas areias E abrir todas as janelas E abrir todas as cadeias. Assim falou meu amor Assim falou-me ele um dia Desde então eu vivo ã espera Que volte como dizia. Meu Limão de Amargura (Meu Amor, Meu Amor)
José Carlos Ary dos Santos/Alain Oulman Meu amor, meu amor, Meu corpo em movimento, Minha voz à procura, Do seu próprio lamento. Meu limão de amargura, Meu punhal a crescer, Nós parámos o tempo, Não sabemos morrer. E nascemos, nascemos, Do nosso entristecer. Meu amor, meu amor Meu pássaro cinzento, A chorar a lonjura, Do nosso afastamento. Meu amor, meu amor, Meu nó de sofrimento, Minha mó de ternura, Minha nau de tormento. Este mar não tem cura, Este céu não tem ar, Nós parámos o vento, Não sabemos nadar. E morremos, morremos Devagar, devagar. Uma Casa Portuguesa
Reinaldo Ferreira/V. M. Sequeira, Artur Fonseca Numa casa portuguesa fica bem Pão e vinho sobre a mesa. Quando à porta humildemente bate alguém, Senta-se a mesa com a gente. Fica bem essa fraqueza, fica bem, Que o povo nunca desmente. A alegria da pobreza Está nesta grande riqueza De dar, e ficar contente. Quatro paredes caiadas, Um cheirinho a alecrim, Um cacho de uvas doiradas, Duas rosas num jardim, Um S. José de azulejo Sob um sol de primavera, Uma promessa de beijos Dois braços a minha espera... É uma casa portuguesa, com certeza! É, com certeza, uma casa portuguesa! No conforto pobrezinho do meu lar, Há fartura de carinho. A cortina da janela é o luar, Mais o sol que bate nela... Basta pouco, poucochinho para alegrar Uma existencia singela... E só amor, pão e vinho E um caldo verde, verdinho A fumegar na tijela. Povo que Lavas no Rio
Pedro Homem de Mello/Joaquim Campos Povo que lavas no rio, Que talhas com teu machado As tábuas do meu caixão, Pode haver quem te defenda, Quem compre o teu chão sagrado, Mas a tua vida não. Fui ter a mesa redonda, Beber em malga que esconda O beijo de mão em mão; Era o vinho que me deste Água pura, fruto agreste, Mas a tua vida não. Aromas de urze e de lama Dormi com eles na cama, Tive a mesma condição; Povo, povo, eu te pertenço, Deste-me alturas de incenso, Mas a tua vida não. Madrugada de Alfama
David Mourão-Ferreira/Alain Oulman Mora num beco de Alfama E chamam-lhe a madrugada, Mas ela, de tão estouvada Nem sabe como se chama. Mora numa água-furtada Que é a mais alta de Alfama E que o sol primeiro inflama Quando acorda a madrugada. Mora numa água-furtada Que é a mais alta de Alfama. Nem mesmo na Madragoa Ninguém compete com ela, Que do alto da janela Tão cedo beija Lisboa. E a sua colcha amarela Faz inveja a Madragoa: Madragoa não perdoa Que madruguem mais do que ela. E a sua colcha amarela Faz inveja a Madragoa. Mora num beco de Alfama E chamam-lhe a madrugada; São mastros de luz doirada Os ferros da sua cama. E a sua colcha amarela A brilhar sobre Lisboa, É como a estátua de proa Que anuncia a caravela, A sua colcha amarela A brilhar sobre Lisboa. Lágrima
Amália Rodrigues/Carlos Gonçalves Cheia de penas me deito E com mais penas me levanto Já me ficou no meu peito O jeito de te querer tanto Tenho por meu desespero Dentro de mim o castigo Eu digo que não te quero E de noite sonho contigo Se considero que um dia hei-de morrer No desespero que tenho de te não ver Estendo o meu xaile no chão E deixo-me adormecer Se eu soubesse que morrendo Tu me havias de chorar Por uma lágrima tua Que alegria me deixaria matar Oiça lá Ó Senhor Vinho
Amália Rodrigues Oiça lá ó senhor vinho Vai responder-nos, mas com franqueza Porque é que tira toda a firmeza A quem encontra no seu caminho Lá por beber um copinho a mais Até pessoas pacatas Amigo vinho em desalinho Vossa mercê faz andar de gatas É mau procedimento E há intenção naquilo que faz Entra-se em desiquilírio Não há equilíbrio que seja capaz As leis da física falham E a vertical de qualquer lugar Oscila sem se deter E deixa de ser perpendicular Eu já fui, responde o vinho A folha solta a bailar ao vento Fui raio de sol no firmamento Que trouxe a uva doce carinho Ainda guardo o calor do sol E assim eu até dou vida Aumento o valor seja de quem fôr Na boa conta, peso e medida E só faço mal a quem me julga Ninguém faz pouco de mim Quem me trata como a água É ofensa págua, eu cá sou assim Vossa mercê tem razão É ingratidão falar mal do vinho E a provar o que digo Vamos meu amigo a mais um copinho |
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